13 setembro 2009

Canções

Cláudia pede-me que a acompanhe nas canções portuguesas que se lembra dos seus quinze anos. «Canta-me agora tu uma canção recente». Quer qualquer coisa de protesto, um texto social, um grito de alerta. Não sei o que te cantar, Cláudia. As coisas mudaram, essas canções já não existem. Ninguém escreve sobre Os Pontos nos ii, sobre a Rosalinda, sobre Ser Solidário.

Cláudia acha que estou a brincar com ela. Foi-se embora de Portugal em 1985, em plena maturidade crítica e intervencionista dos portugueses, no apogeu das batalhas, dos ideais, das opiniões, antes da fulminante decadência cívica, ética e moral dos anos do cavaquismo, no guterrismo, do novo-riquismo. «Estás a brincar comigo?» Não, Cláudia, não estou. A sociedade já não se interessa, não quer saber, nem sequer há políticos que a mobilizem, já não há Cunhais, Soares, Sá-Carneiros, agora é tudo igual, tudo ao centro, Cláudia, há umas ideias engraçadas de um Bloco de Esquerda, mas que não têm nada a ver com os portugueses, sabes, são ideias demasiado avançadas ou demasiado retrógradas e, de qualquer das formas, ninguém se interessa. Já não faz falta avisar a malta, Cláudia. A malta não quer ser avisada.

Talvez daqui a 20 anos os nossos caminhos se cruzem outra vez, num outro deserto lunar da Terra. E quem sabe, Cláudia? Talvez haja de novo canções indignadas para cantar. Talvez finalmente o vento responda.

 

Planisfério Pessoal, Gonçalo Cadilhe

 

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