13 setembro 2009

Ser João Garcia

Penso no fogo que arde dentro dos alpinistas, penso nessa raça de humanos que se mexe pelo estímulo mais absurdo que há: não ver nada mais alto. Penso em João Garcia, na sua determinação em viver com qualidade de vida, porque «qualidade de vida» não é o todo-terreno para o engarrafamento matinal cinco dias por semana, nem poupar no preço daquilo se come para se gastar naquilo que se mostra. «Qualidade de vida» não são os quatro apelidos e três nomes próprios do filho varão, nem a lista de espera de dois anos para a creche, nem o T1de luxo entrincheirado no horror paisagístico que caracteriza a periferia portuguesa em geral, a Grande Lisboa em particular. «Qualidade de vida» não é a música que bate na cabeça a Sábado à noite, a amena cavaqueira com o copinho de uísque na mão, o livro que não se lê, a decisão que não se toma.

Qualidade de vida é ter um sonho e lutar por ele, é fazer como o João Garcia, que é português mas de uma raça antiga que se vai diluindo sem apelo nem antídoto nas compras do hipermercado no domingo à tarde. Que bom foi ter subido a Chacaltaya para espreitar os sonhos dos outros, para saber quanto custam, quantos músculos requerem, quanta energia roubam, quanto oxigénio não dão. Agora já tenho uma pequena ideia, muito por aproximação, da alegria de não ver nada mais alto.

 

Planisfério Pessoal, Gonçalo Cadilhe

 

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