29 setembro 2009

Sem palavras

 

Acabei de assistir a isto, no programa Antena Aberta, emitido em parceria pela Antena 1 e pela RTPN:

 

Rui Baptista (editor político da agência lusa, analista e jornalista político): ''Ainda ontem a pessoa X do PSD reagiu aos resultados definindo-me o estado actual do partido com um verso de Sophia de Mello Breyner…"

 

curiosa, atentei. o dito senhor prossegue:

“cadáver adiado que procria”

 

Podia ter sido um lapso. Mas bastante convicto continua e insiste em realçar a poesia de Sophia.

Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa, Mensagem

 

A minha geração pode ser rasca, mas não se lhe pode exigir muito mais quando ouve estas pérolas por parte dos nossos bem formados analistas…

28 setembro 2009

Habitar

EPSN7465

Habitar é, aparentemente, mais um dos ambíguos conceitos arquitectónicos. Parece possível distinguir mil e um sentidos nas mais diversas áreas: arquitectura, biologia, geografia, sociologia…

Procurar os «sentidos estritos» (brincando com as palavras do outro senhor…) tornou-se um vício. O que diz o dicionário sobre isto?

habitar

v. tr.

1. Ter a sua residência em.

v. tr. e intr.

2. Morar; viver.

 Mas falar do habitar é indissociável – por mais que os arquitectos o pretendam – de falar de pessoas e vidas, presente e passado, falar do espaço, da sua utilidade e da sua vivência (preferencialmente reais!). É possível falar de habitar pela antítese no desabitado que deixa a nu as memórias do vivido.

«Habitar é deixar marcas.» Walter Benjamin

eu e a minha "diana+" na rota dos sentidos


não tenho por hábito descrever (quem sabe até pensar) muito do que vejo. mesmo as fotos que faço pouco conseguem descrever as coisas que apreendo. por esse motivo a única coisa que posso fazer é despertar curiosidade ou inquietude.



passados 3/2 meses de estadia em turquia, consigo mostrar algo! num país onde a história me assombra, sinto a nostalgia de uma cultura que nem sei se serei capaz de conhecer. quando penso que começo a perceber a forma como a cidade se movimenta, tudo muda! ou pelo final do ramadão, ou pelo inicio do ano escolar.

após várias horas de autocarro, consegue-se chegar ás mais variadas cidades num pais onde a dispersidade e diversidade andam de mãos dadas. 

de uma das cidades mais cosmopolita da europa, para as paisagens mais incriveis da capadócia, passando ainda pela cidade portuária de extrema importancia na história da economia da turquia.

voltar a istanbul, fez-me sentir em casa. por isso agora digo que istanbul é a minha home town!


de qualquer forma mais lomos aqui: http://www.lomography.com/homes/paulovianinha


 

22 setembro 2009

Walking Around

Acontece que me canso de ser homem.

Acontece que entro nas alfaiatarias e nos cinemas

abatido, impenetrável, como um cisne de feltro

vogando numa água de orizem e de cinza.

 

O cheiro das barbearias faz-me gritar em lágrimas.

Eu só quero um descanso de pedras ou de lã,

eu só quero não ver as lojas e os jardins,

mercadorias, óculos, ascensores.

 

Acontece que me canso destes pés, destas unhas,

e do cabelo e da sombra.

Acontece que me canso de ser homem.

 

E no entanto seria delicioso

assustar um notário com um lírio cortado

ou dar morte a uma freira com um soco no ouvido.

Seria lindo

ir pela rua com uma faca verde

e aos gritos até morrer de frio.

 

Não quero continuar a ser raiz nas trevas,

vacilante, estendido, tiritando de sono,

para baixo, nas tripas molhadas da terra,

absorvendo e pensando, comendo dia após dia.

 

Não quero para mim tanta desgraça.

Não quero continuar raiz e sepultura,

subterrâneo solitário e adega com mortos,

transido, morrendo de desgosto.

 

Por isso a segunda-feira arde como o petróleo

quando me vê chegar com esta cara de cárcere,

e uiva no seu decurso como roda ferida,

e dá passos de sangue quente em direcção à noite.

 

E empurra-me para certos cantos, certas casas húmidas,

para os hospitais onde os ossos saem pela janela,

para certas sapatarias que cheiram a vinagre,

para ruas espantosas como fendas.

 

Há pássaros cor de enxofre com horríveis intestinos

pendentes da entrada das casas que eu odeio,

há dentaduras esquecidas numa cafeteira,

há espelhos

que deviam ter chorado de vergonha e de espanto,

há guarda-chuvas em todo o lado, e venenos e umbigos.

 

Eu passeio com calma, com olhos, com sapatos,

com fúria, com esquecimento,

passo, atravesso escritórios e centros ortopédicos,

e pátios onde há roupa a secar num arame:

cuecas, toalhas e camisas que choram

lentas lágrimas sujas.

 

Pablo Neruda

18 setembro 2009

Definição de Arquitectura?

Ouvi falar de «sentido estrito de Arquitectura» e isso despertou-me alguma curiosidade. Ao fim de um ano continuo sem saber o mais básico: qual é afinal o sentido estrito de Arquitectura? Como se define Arquitectura?

Para colmatar esta falha, nada melhor que um dicionário.

arquitectura (tè)

s. f.

1. Arte de projectar e construir edifícios.

2. Contextura.

3. Fig. Forma, estrutura.

(Priberam)

 

Não fiquei satisfeita. Fiz outra tentativa.

arquitectura

s. f.

arte de edificar ou traçar planos para a construção de edifícios com qualidade estética.

(Dicionário Básico de Língua Portuguesa, Porto Editora)

Nada de novo, a não ser a «qualidade estética» que, convenhamos, por vezes é um pouco duvidosa.

Parece-me bastante redutor definir arquitectura como acto de projectar edifícios. Fica de parte toda a vertente de ordenamento de território e definição de espaços intensos, para além do papel social da Arquitectura na construção de um mundo novo.

E como definir, então, conceitos com território ou espaço? Aqui ficam as redutoras definições do dicionário, só para que constem no seu «sentido estrito»:

espaço

s. m.

1. Intervalo entre limites.

2. Vão; claro; lugar vazio.

 

território

s. m.

1. Área dependente de uma nação, província ou localidade.

2. Termo.

3. Jurisdição.

 

paisagem (a-i)

s. f.

1. Extensão de território que se abrange com um lance de vista.

2. Desenho, quadro, género literário ou trecho que representa ou em que se descreve um sítio campestre.

(Priberam)

 

Definições burocráticas das quais a vivência e a experimentação sensorial ficam completamente excluídas…

16 setembro 2009

Zoides

Os zoides invadem a casa: Não: os zoides regressam a   casa. E não: os zoides constroem a casa.

O zoides constroem a casa existente   ruína de onde voaram a carpintaria, os tubos, a água corrente.

Todos constroem a casa feita por séculos por todos.

Todos se encontram na casa descoberta por alguém   enfim não se sabe quem   de súbito: nós.

Encontramo-los companheiro ressuscitado   estranho familiar íntimo completamente estranho.

Cada um mudo na casa de onde nunca saiu   dissolvido na pedra na relva na Nespereira no Líriodendro na Magnólia   ocupa a sala  o leito  traz amigos dentro de nós   recordo vagamente o que pensamos ou vemos   interfere   sentido do que não se lembra nem se entende nem projecta.

Fantasma nítido   feto de sabedoria de velho  vigor de atleta.

Invasor de interiores   não: dentro do imperceptível como braço ou olhos pensamentos de outros    legião densa Fábula Fabiola – Zoides   personagens de Bizâncio   imóveis   olhos penetrantes   instantâneo de mover vertiginoso   existentes  sem pressa.

Abrigo seguro   irreflectida aventura da serenidade   sombra na cabeça longe    não inventado    aperto de mão do ar    novo poro dos pulmões    chão. To call   ter cal   ponto crescente abraço – que braço?  - vento    porta entreaberta opaca e transparente. Está lá?    Aí está cá. Lá. Ali.

Decididamente não sei nada de Zoides         a não ser que são belos e juntam muita gente.

 

Siza Vieira

13 setembro 2009

Canções

Cláudia pede-me que a acompanhe nas canções portuguesas que se lembra dos seus quinze anos. «Canta-me agora tu uma canção recente». Quer qualquer coisa de protesto, um texto social, um grito de alerta. Não sei o que te cantar, Cláudia. As coisas mudaram, essas canções já não existem. Ninguém escreve sobre Os Pontos nos ii, sobre a Rosalinda, sobre Ser Solidário.

Cláudia acha que estou a brincar com ela. Foi-se embora de Portugal em 1985, em plena maturidade crítica e intervencionista dos portugueses, no apogeu das batalhas, dos ideais, das opiniões, antes da fulminante decadência cívica, ética e moral dos anos do cavaquismo, no guterrismo, do novo-riquismo. «Estás a brincar comigo?» Não, Cláudia, não estou. A sociedade já não se interessa, não quer saber, nem sequer há políticos que a mobilizem, já não há Cunhais, Soares, Sá-Carneiros, agora é tudo igual, tudo ao centro, Cláudia, há umas ideias engraçadas de um Bloco de Esquerda, mas que não têm nada a ver com os portugueses, sabes, são ideias demasiado avançadas ou demasiado retrógradas e, de qualquer das formas, ninguém se interessa. Já não faz falta avisar a malta, Cláudia. A malta não quer ser avisada.

Talvez daqui a 20 anos os nossos caminhos se cruzem outra vez, num outro deserto lunar da Terra. E quem sabe, Cláudia? Talvez haja de novo canções indignadas para cantar. Talvez finalmente o vento responda.

 

Planisfério Pessoal, Gonçalo Cadilhe

Ser João Garcia

Penso no fogo que arde dentro dos alpinistas, penso nessa raça de humanos que se mexe pelo estímulo mais absurdo que há: não ver nada mais alto. Penso em João Garcia, na sua determinação em viver com qualidade de vida, porque «qualidade de vida» não é o todo-terreno para o engarrafamento matinal cinco dias por semana, nem poupar no preço daquilo se come para se gastar naquilo que se mostra. «Qualidade de vida» não são os quatro apelidos e três nomes próprios do filho varão, nem a lista de espera de dois anos para a creche, nem o T1de luxo entrincheirado no horror paisagístico que caracteriza a periferia portuguesa em geral, a Grande Lisboa em particular. «Qualidade de vida» não é a música que bate na cabeça a Sábado à noite, a amena cavaqueira com o copinho de uísque na mão, o livro que não se lê, a decisão que não se toma.

Qualidade de vida é ter um sonho e lutar por ele, é fazer como o João Garcia, que é português mas de uma raça antiga que se vai diluindo sem apelo nem antídoto nas compras do hipermercado no domingo à tarde. Que bom foi ter subido a Chacaltaya para espreitar os sonhos dos outros, para saber quanto custam, quantos músculos requerem, quanta energia roubam, quanto oxigénio não dão. Agora já tenho uma pequena ideia, muito por aproximação, da alegria de não ver nada mais alto.

 

Planisfério Pessoal, Gonçalo Cadilhe

 

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