16 fevereiro 2011

Zeitgeist

«A arquitectura é a vontade de uma época traduzida ao espaço.»
(Mies van der Rohe)

A conhecida afirmação de Mies van der Rohe atesta a teoria de que o Zeitgeist, espírito cultural e intelectual de uma época, se encontra expresso na Arquitectura, reflectindo esta os avanços e as aspirações da sociedade do seu tempo. Desde o início do século XX à primeira década do século XXI, o Mundo mudou e com ele os ideais da Arquitectura Modernista foram-se dispersando até chegarmos aos modelos de Arquitectura Icónica. Continuará este modelo enquadrado com o Zeitgeist?
No início dos anos 20, o coração da Europa sofre as consequências da Primeira Guerra Mundial: piora drasticamente a situação da habitação, o desenvolvimento urbano e a construcção estão paralizados, as condições de higiene e salubridade nos velhos bairros são péssimas e a grande afluência aos centros industriais encarece o preço do solo e potencia a especulação (Gössel e Leuthhäuser, 2005). Neste contexto, surge a Nova Objectividade, radicalizada na posição da Bauhaus, inspirada no construtivismo russo, que apregoa a morte da estética e a sua subsituição pela função, defendendo uma arquitectura técnica e construtiva e não artística. Ao propor uma adaptação da arquitectura à produção industrial, não procura definir uma abordagem estética, mas sim metodológica, substituindo, por exemplo, o trabalho artesanal pelo projecto prévio que proporcione a produção industrial e em massa, a fim de chegar mais rapidamente a um maior número de pessoas (Sampaio, 2009). Os projectos, bastante depurados e recusando a excessiva ornamentação, priviligiavam a funcionalidade, sob o lema «primeiro a cozinha, depois a fachada» (Gössel e Leuthhäuser, 2005). De modo a conseguir habitações de qualidade a baixo custo, recorreu-se à industrialização do processo construtivo, através da utilização de elementos pré-construídos. Acima de tudo, segundo Meier, «a nova geração de arquitectos deveria perceber a importância das necessidades sociais e a sua própria responsabilidade social. O modelo de trabalho em equipa permitir-lhe-ia responder melhor à complexidade crescente das tarefas de construcção.» (Droste, 2006, p.193).

E hoje em dia? Os finais do século XX trouxeram um incremento do liberalismo económico e a crença nas capacidades reguladoras do mercado e, com isso, o descrédito do papel social do arquitecto. Reflexos do consumismo e de uma certa prosperidade económica, ascendem os complexos hoteleiros, os museus, salas de espectáculos e centros comerciais como principais programas da arquitectura. Estes projectos, desenvolvidos em grande escala, tornam-se verdadeiros icónes e redefinem a identidade do lugar, contribuindo para a notoriedade do arquitecto enquanto autor. No actual contexto, os grandiosos projectos de arquitectura de autor tornam-se, muitas vezes, insustentáveis financeira e ambientalmente, contribuíndo assim para avolumar problemas mais do que para resolver. Em 2000 a bienal de Veneza, comissariada por Massimiliano Fuksas, subordinou-se ao tema «Mais ética, menos estética», lançando o debate sobre a situação de ruptura dos modelos da denominada «Star Architecture» na resposta à sociedade actual, em que habitação continua a ser um problema, como diz Barry Bergdoll « A habitação é uma das maiores crises que aí vem (…) mais de metade da população vive em cidades e estas estão em grande crescimento» (Coelho, 2010). Por fim, novos programas emergem, todos eles com um vincado pendor social – escolas, hospitais, lares de idosos, e retoma-se o trabalho de equipa em desfavor da «ideia de arquitectura como o edifício individual, a criação de uma pessoa que se destaca no meio de uma cidade, como uma espécie de destino de peregrinações», como explica Bergdoll (Coelho, 2010).
No contexto de crise actual o modelo de arquitectura desenvolvido nas últimas décadas parece não corresponder às necessidades da sociedade, parecendo haver uma tendência de reaproximação aos ideais sociais defendidos pelo modernismo. Passará o zeitgeist do nosso tempo por uma arquitectura de responsabilidade social?

02 dezembro 2010

Proporção na Arquitectura Medieval

«Inspirada, grosseira, imponente, subtil ou requintada, sempre ultrapassando as aparências imediatas, mesmo quando se inspira no naturalismo antigo, abre portas desconhecidas para visões tão estranhas à nossa racionalidade» (Reveyron e Mouilleron, 2000)


Desde logo a expressão Românico, analogamente ao termo «romanço» para as línguas derivadas do latim, procura designar a forma arquitectónica derivada da arquitectura romana. Ainda que se afaste desta em muitos aspectos, como por exemplo a não utilização das ordens, a arquitectura românica serve-se dos ensinamentos da antiguidade, principalmente ao nível construtivo, na utilização do arco de volta perfeita, da pilastra, da coluna e outros elementos. A métrica não é descurada na arquitectura românica, bem pelo contrário: é através do seu ritmo modular e da estrutura explícita que se pretende chegar ao visitante. O seu princípio fundamental é «expor tudo para educar mostrando», pelo que se procura uma arquitectura depurada e facilmente apreensível. (d’Alfonso e Samsa, 2006)


Mas é sobretudo ao nível da planta que mais se sente a interpretação antropomórfica cristã. «Deus criou o homem à sua imagem» (Gênesis, 1) e a Igreja é criada à imagem de Deus. Metaforicamente, a planta em cruz latina sugere-nos a proporção humana: Cristo de braços abertos para abraçar a Humanidade e, no lugar do coração, o espaço mais sagrado, o altar, para o qual toda a Igreja é perspectivada.


Mantendo a antropomorfia sugerida já na planta românica, a Catedral Gótica torna-se esmagadora ao homem pelas suas proporções e pela sua verticalidade. A leveza da estrutura, a abertura à luz e a elevação aos céus procuram aproximar o homem a Deus, mas simultaneamente revela-lo na sua pequenez. A métrica gótica não é pensada para o homem, mas a partir dele. Apesar da contradição da grande escala, a arquitectura é dimensionada segundo a distância de leitura proporcionada ao olhar, portanto ao homem. O movimento, procurou, a seu tempo, levar a luz ao espaço arquitectónico como metáfora do pensamento intelectual. A geometria é pensada ao detalhe e as proporções não são aleatórias, como por exemplo se vê na Catedral de Chartres em que o comprimento é duplo em relação aos lados. Para além disso, neste exemplo em concreto, o desenho das fachadas respeita as proporções áureas, relacionadas não só com a proporção do homem mas de toda a natureza. Por volta de 1230, Villard de Honnecourt deixou-nos cadernos repletos de desenhos e cálculos proporcionais sobre relações entre os diversos elementos da catedral gótica. (d’Alfonso e Samsa, 2006)


Os exemplos analisados mostram que durante a Idade Média a arquitectura, particularmente a religiosa, manteve um cuidado com a geometria e a proporção, atribuindo-lhe também um significado religioso, reinterpretando o antropomorfismo clássico, não se limitando a mimetiza-lo.

19 julho 2010

Ainda se lembra?


«Restaurador Olex, Pasta Couto, Sabão Clarim, Farinha 33, Azeite Saloio ou os Brinquedos PEPE são apenas algumas das muitas marcas que povoam a memória e o imaginário dos Portugueses. Um mundo que não desapareceu e está de regresso, mais encantador que nunca!...
Para os que nunca se esqueceram e também para os que "já não são desse tempo", criamos a Companhia Portugueza, em pleno coração da Coimbra dos Amores.
Sinta-se em casa. Dos avós.»

29 março 2010

Páre, Escute e Olhe

Trailer Cinema "Pare, Escute, Olhe" from Pare, Escute, Olhe on Vimeo.


A propósito do prémio atribuído a Jorge Pelicano no FIGRA - Festival Internacional de Grandes Reportagens - de 2010, pela reportagem «Eu e os Meus Irmãos», nunca é demais (re)lembrar o também muito premiado trabalho documental «Páre, Escute e Olhe», que estreará nas salas de cinema no próximo dia 8 de Abril.
Partindo da situação da Linha do Tua, este trabalho deixa a nu uma região deprimida e constantemente esquecida pelos sucessivos governos, vítima de promessas por cumprir e de votos de desprezo que conduzem ao despovoamento e isolamento crescentes.
Um grito de alerta aos transmontanos, para que lutem pelo seu direito ao desenvolvimento, não se deixando submergir. Aqui fica a ligação para o Manifesto pela Preservação do Património do Vale do Tua.

«o comboio, este comboio, morreu enforcado por uma gravata»

01 fevereiro 2010

Povo que Canta Revisitado

Povo que Canta

Michel Giacometti, etnomusicólogo corso, dedicou os últimos 30 anos da sua vida ao estudo do património musical português, através de registos in loco por todo o país. São da sua responsabilidade os Arquivos Sonoros Portugueses, e, em colaboração com Fernando Lopes-Graça, a Antologia da Música Regional Portuguesa e o Cancioneiro Popular Português. Entre 1970 e 1973, apresentou na RTP o programa Povo que Canta, realizado por Fernando Tropa, um dos mais importantes documentos sobre a tradição musical portuguesa. Em 2003, Manuel Rocha, músico da Brigada Victor Jara, e Ivan Dias seguem-lhe as pisadas, numa nova série do Povo Que Canta, que nos mostra de que forma a tradição resiste, passados 30 anos. Porque conhecer o trabalho de Giacometti é o primeiro passo para compreender e valorizar a memória, reconstruindo e promovendo a cultura de raiz tradicional, a palavra a Manuel Rocha e o convite à participação espontânea de todos os gaiteiros e novos intérpretes da música tradicional.

06 dezembro 2009

Linha do Sabor

Embalados pelo olhar deste documentário, tão falado e premiado (espero poder vê-lo em breve), mais olhos se viram para esta terra que é minha, nossa, terra de tantos bons, terra dura e rude, e de pobres, dos outros que somos, os de fora das cidades grandes, os de longe, os do fim do mundo que é o que fica por detrás dos montes.
O Público tem uma pequena fotoreportagem sobre a linha do Sabor mas também um artigo longo(1) em duas partes(2) e uma entrevista, passados 33 anos do filme Trás-os-Montes, que infelizmente só encontro na internet um excerto e terei de esperar encontra numa qualquer exibição na RTP2.

*há links que vão para blogs porque já não se encontra disponível o artigo para leitura no site do Público.

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12 novembro 2009

(re)Construir cidades. Online

Em Setembro, passou-se em Serralves e na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto o Colóquio (re)Construir Cidades: Cartografias a partir de Marques da Silva. Para quem, como eu, não pôde estar presente nas conferências do programa, estão neste site os vídeos de grande parte delas.

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11 novembro 2009

Living Room Music

Já antes aqui se divulgou com espanto a peça 4:33 de John Cage. Hoje divulgo uma outra, Living Room Music, numa onda de fascínio por um admirável mundo novo (passado) que estou a conhecer, o da música do século XX, a mais experimentalista, percursora da electrónica contemporânea e da música aleatória.

Para outro dia fica o desenvolver deste tema..

(sim é verdade, parece que me voltou a vontade de escrever algo aqui...)

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07 novembro 2009

Perdido por dez...


Há situações na vida em que já tanto nos dá perder por dez como perder por cem, o que queremos é conhecer rapidamente a última soma do desastre, para depois, se tal for possível não voltarmos a pensar mais no assunto.

José Saramago

27 outubro 2009

Terreiro do Gaiteiro

Terreiro do Gaiteiro

«O “Terreiro do Gaiteiro” é um convívio entre tocadores e apreciadores de Gaita-de-Foles, sem qualquer limite de idade, onde estão convidados a participar espontaneamente os que respondem ao apelo de tocar, dançar, ou, simplesmente, de desfrutar da atmosfera festiva que este evento origina. Avivamos que o “Terreiro do Gaiteiro” tem como objectivo primordial fomentar a proximidade e a partilha da música entre gaiteiros, percussionistas, tamborileiros, acordeonistas, etc. Vivendo da participação espontânea do público tocador e dançarino. »

Org.: Terreiro do Gaiteiro e C.A.R.

 

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