Proporção na Arquitectura Medieval

«Inspirada, grosseira, imponente, subtil ou requintada, sempre ultrapassando as aparências imediatas, mesmo quando se inspira no naturalismo antigo, abre portas desconhecidas para visões tão estranhas à nossa racionalidade» (Reveyron e Mouilleron, 2000)
Desde logo a expressão Românico, analogamente ao termo «romanço» para as línguas derivadas do latim, procura designar a forma arquitectónica derivada da arquitectura romana. Ainda que se afaste desta em muitos aspectos, como por exemplo a não utilização das ordens, a arquitectura românica serve-se dos ensinamentos da antiguidade, principalmente ao nível construtivo, na utilização do arco de volta perfeita, da pilastra, da coluna e outros elementos. A métrica não é descurada na arquitectura românica, bem pelo contrário: é através do seu ritmo modular e da estrutura explícita que se pretende chegar ao visitante. O seu princípio fundamental é «expor tudo para educar mostrando», pelo que se procura uma arquitectura depurada e facilmente apreensível. (d’Alfonso e Samsa, 2006)
Mas é sobretudo ao nível da planta que mais se sente a interpretação antropomórfica cristã. «Deus criou o homem à sua imagem» (Gênesis, 1) e a Igreja é criada à imagem de Deus. Metaforicamente, a planta em cruz latina sugere-nos a proporção humana: Cristo de braços abertos para abraçar a Humanidade e, no lugar do coração, o espaço mais sagrado, o altar, para o qual toda a Igreja é perspectivada.
Mantendo a antropomorfia sugerida já na planta românica, a Catedral Gótica torna-se esmagadora ao homem pelas suas proporções e pela sua verticalidade. A leveza da estrutura, a abertura à luz e a elevação aos céus procuram aproximar o homem a Deus, mas simultaneamente revela-lo na sua pequenez. A métrica gótica não é pensada para o homem, mas a partir dele. Apesar da contradição da grande escala, a arquitectura é dimensionada segundo a distância de leitura proporcionada ao olhar, portanto ao homem. O movimento, procurou, a seu tempo, levar a luz ao espaço arquitectónico como metáfora do pensamento intelectual. A geometria é pensada ao detalhe e as proporções não são aleatórias, como por exemplo se vê na Catedral de Chartres em que o comprimento é duplo em relação aos lados. Para além disso, neste exemplo em concreto, o desenho das fachadas respeita as proporções áureas, relacionadas não só com a proporção do homem mas de toda a natureza. Por volta de 1230, Villard de Honnecourt deixou-nos cadernos repletos de desenhos e cálculos proporcionais sobre relações entre os diversos elementos da catedral gótica. (d’Alfonso e Samsa, 2006)
Os exemplos analisados mostram que durante a Idade Média a arquitectura, particularmente a religiosa, manteve um cuidado com a geometria e a proporção, atribuindo-lhe também um significado religioso, reinterpretando o antropomorfismo clássico, não se limitando a mimetiza-lo.