02 dezembro 2010

Proporção na Arquitectura Medieval

«Inspirada, grosseira, imponente, subtil ou requintada, sempre ultrapassando as aparências imediatas, mesmo quando se inspira no naturalismo antigo, abre portas desconhecidas para visões tão estranhas à nossa racionalidade» (Reveyron e Mouilleron, 2000)


Desde logo a expressão Românico, analogamente ao termo «romanço» para as línguas derivadas do latim, procura designar a forma arquitectónica derivada da arquitectura romana. Ainda que se afaste desta em muitos aspectos, como por exemplo a não utilização das ordens, a arquitectura românica serve-se dos ensinamentos da antiguidade, principalmente ao nível construtivo, na utilização do arco de volta perfeita, da pilastra, da coluna e outros elementos. A métrica não é descurada na arquitectura românica, bem pelo contrário: é através do seu ritmo modular e da estrutura explícita que se pretende chegar ao visitante. O seu princípio fundamental é «expor tudo para educar mostrando», pelo que se procura uma arquitectura depurada e facilmente apreensível. (d’Alfonso e Samsa, 2006)


Mas é sobretudo ao nível da planta que mais se sente a interpretação antropomórfica cristã. «Deus criou o homem à sua imagem» (Gênesis, 1) e a Igreja é criada à imagem de Deus. Metaforicamente, a planta em cruz latina sugere-nos a proporção humana: Cristo de braços abertos para abraçar a Humanidade e, no lugar do coração, o espaço mais sagrado, o altar, para o qual toda a Igreja é perspectivada.


Mantendo a antropomorfia sugerida já na planta românica, a Catedral Gótica torna-se esmagadora ao homem pelas suas proporções e pela sua verticalidade. A leveza da estrutura, a abertura à luz e a elevação aos céus procuram aproximar o homem a Deus, mas simultaneamente revela-lo na sua pequenez. A métrica gótica não é pensada para o homem, mas a partir dele. Apesar da contradição da grande escala, a arquitectura é dimensionada segundo a distância de leitura proporcionada ao olhar, portanto ao homem. O movimento, procurou, a seu tempo, levar a luz ao espaço arquitectónico como metáfora do pensamento intelectual. A geometria é pensada ao detalhe e as proporções não são aleatórias, como por exemplo se vê na Catedral de Chartres em que o comprimento é duplo em relação aos lados. Para além disso, neste exemplo em concreto, o desenho das fachadas respeita as proporções áureas, relacionadas não só com a proporção do homem mas de toda a natureza. Por volta de 1230, Villard de Honnecourt deixou-nos cadernos repletos de desenhos e cálculos proporcionais sobre relações entre os diversos elementos da catedral gótica. (d’Alfonso e Samsa, 2006)


Os exemplos analisados mostram que durante a Idade Média a arquitectura, particularmente a religiosa, manteve um cuidado com a geometria e a proporção, atribuindo-lhe também um significado religioso, reinterpretando o antropomorfismo clássico, não se limitando a mimetiza-lo.

 

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