Marcha dos Hipócritas
A constatação é triste e inevitável. O 25 de Abril definha ano após ano, cada vez mais depressa.
Assistimos hoje à marcha dos hipócritas: os senhores do poder que diariamente corrompem e fecham as portas que Abril abriu desfilaram pela Assembleia da República, trajados a rigor. Mas os cravos ficaram em casa. As comemorações assemelham-se (se é que não o são mesmo) a um ritual obrigatório, forçado e aborrecido, rotineiro e sem sentido.
Abril está preso por um fio, na memória dos poucos que ainda o recordam (quer o tenham vivido ou não). Não sem mágoa e tristeza, pelas esperanças traídas de um Portugal melhor. Os valores de Abril são corrompidos e pervertidos pelos mesmos que o celebram na Assembleia da República com pompa e circunstância. Cada vez estamos mais longe dos sonhos de justiça e igualdade social, de democracia e liberdade. Abrimos os olhos para uma realidade bem mais dura: precariedade laboral, direitos adquiridos constantemente postos em causa, desigualdade na distribuição de riqueza, justiça corrupta e só para alguns, pensões miseráveis para os que sempre trabalharam, um sistema de saúde à beira da ruptura e tantas vezes inacessível, uma educação que vive de e para estatísticas e que muitos não podem pagar.
E no entanto, Abril permanece como uma sombra de um passado distante em vez de ser reavivado. Para os mais novos o 25 de Abril foi completamente esquecido. A indignação dá lugar ao conformismo, o alheamento toma o lugar da revolta. Como se tudo fosse fácil. Fácil demais. Tão fácil que podem dizer: «E afinal quem quer mesmo votar?». Que futuro podemos esperar desta geração que perdeu os ideais?