25 abril 2009

Marcha dos Hipócritas

A constatação é triste e inevitável. O 25 de Abril definha ano após ano, cada vez mais depressa.

Assistimos hoje à marcha dos hipócritas: os senhores do poder que diariamente corrompem e fecham as portas que Abril abriu desfilaram pela Assembleia da República, trajados a rigor. Mas os cravos ficaram em casa. As comemorações assemelham-se (se é que não o são mesmo) a um ritual obrigatório, forçado e aborrecido, rotineiro e sem sentido.

Abril está preso por um fio, na memória dos poucos que ainda o recordam (quer o tenham vivido ou não). Não sem mágoa e tristeza, pelas esperanças traídas de um Portugal melhor. Os valores de Abril são corrompidos e pervertidos pelos mesmos que o celebram na Assembleia da República com pompa e circunstância. Cada vez estamos mais longe dos sonhos de justiça e igualdade social, de democracia e liberdade. Abrimos os olhos para uma realidade bem mais dura: precariedade laboral, direitos adquiridos constantemente postos em causa, desigualdade na distribuição de riqueza, justiça corrupta e só para alguns, pensões miseráveis para os que sempre trabalharam, um sistema de saúde à beira da ruptura e tantas vezes inacessível, uma educação que vive de e para estatísticas e que muitos não podem pagar.

E no entanto, Abril permanece como uma sombra de um passado distante em vez de ser reavivado. Para os mais novos o 25 de Abril foi completamente esquecido. A indignação dá lugar ao conformismo, o alheamento toma o lugar da revolta. Como se tudo fosse fácil. Fácil demais. Tão fácil que podem dizer: «E afinal quem quer mesmo votar?». Que futuro podemos esperar desta geração que perdeu os ideais?

16 abril 2009

Lugar sagrado

Qual é o lugar sagrado numa escola de Arquitectura? Poderia ser o vestíbulo, mas também poderia ser o lugar onde vos reunis, para comentar e trocar impressões. Uma reacção perante o teu trabalho significa milhões de aprovações, ainda que sejam só uns poucos. É o tipo de coisas com as quais aprendes a acreditar naquilo que apresentas, e isso é formidável.

Chama-lhe sala de correcções, se quiseres, mas, na realidade, é o espaço onde vos reunis, onde todas as turmas se reúnem, para uma espécie de comentário acerca de uma experiência ao fazer um edifício…que começou com um pedaço de papel branco.

A lição mais valiosa poderia ser chamar a diferentes pessoas e conseguir algumas reacções, inclusivamente reacções violentas de gente com determinadas crenças. Não vos vão dar nota. As notas dizem respeito ao professor. Creio que pedir-lhe a quem venha que te dê nota é pedir demasiado. Está a reagir e reagir não deveria implicar uma nota.

Sou contra dar notas nas correcções. Realmente creio que não se trata de uma simples sessão de avaliação. Se o professor pede a alguém que participe no júri, é o cúmulo. Não creio que um estudante deva estar de pé, tremendo como uma folha, diante de gente que não conhece e explicar o seu projecto, depois de ter trabalhado toda a noite, ou, quem sabe, duas noites seguidas. Está feito um monte de nervos, faz o melhor que pode, assim que acho que o júri nunca lhe deveria dar uma nota. A sala de correcções deveria ser um lugar onde sabes que não te vão repreender. Vais simplesmente respirar um espírito e o ambiente deveria ser alegre.

Creio que em volta disto é possível construir uma escola. Tens muitas salas. As salas podem ter paredes toscas: não importa. Podes pendurar coisas onde te apetecer. Podes deitar tinta pelo chão. A sala pode ser como um Jackson Pollock, mas quando vais à sala de correcção, não. Deveria haver algo maravilhoso nesse lugar. Um lugar onde podes tomar um chá…uma sala que devia ser sempre amigável. Sempre um santuário, não uma sala onde te sentas como se fosses ser julgado. Simplesmente uma sala maravilhosa. O espaço sagrado da escola de arquitectura.

                                                                                               Louis I. Khan

07 abril 2009

Arte Contemporânea

«Em certo sentido a Arte é tão ‘séria’ como a ciência ou a filosofia, que também não têm público. É interessante ou não na exacta medida em que se sabe ou não dela.» Joseph Kosuth

«Isto?! Arte?!...». Assumo o cepticismo inicial como simples desconhecimento. Ao fim de algumas aulas de MAAC esse desdém que caracterizava a minha posição perante a Arte Contemporânea deu lugar a uma paixão desenfreada.

Percebo agora que Arte pode ser tudo. Ou nada. Que a Arte não está na técnica mas sim no conceito: o poder das ideias! O que está longe de facilitar as coisas. A genialidade está em enfrentar a banalidade e tirar dela algum proveito. Porque também há arte no nosso quotidiano rotineiro.

Acima de tudo, a Arte Contemporânea apresenta-se-me agora como a pura liberdade criativa. E é isso que a torna fascinante!

 

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